quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Petróleo no Brasil II-C



Fig 1: Produção e Reservas dos Grandes Produtores
Esse artigo faz parte duma série sobre Petróleo no Brasil.  Os outros são: I. Fatos básicos sobre petróleoII. Consumo de petróleo no Brasil, e III. Reservas do Brasil

O potencial petrolífero de um país pode ser baseado nas reservas, mas essas reservas têm que ser extraídas e isso exige investimento.  Para julgar o desenvolvimento do setor, é melhor olhar na produção diária.  Em 2013, o Brasil produziu em torno de 2,000 barris de petróleo por dia[1] e pretende produzir 4.900 em 2023[2].  O gráfico é quase a mesma coisa do que o gráfico no artigo anterior, mas também coloca-se as informações sobre produção por dia em cada país.  É importante destacar que o eixo da produção fica no teto do gráfico (em mil barris por dia), e o eixo das "reservas provadas" fica embaixo com a medida sendo Bilhões de barris.  A linha vermelho vertical mostra produção de 4.900 mil barris por dia, que é a expectativa do produção brasileira em 2023 no último relatório (PDE 2023) escrito por a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Brasil.   Lembrando que os pontos combinam com o eixo superior, a gente pode ver que outros países que produziram na mesma casa do Brasil em 2013 foram Nigéria, Catar, e Venezuela mesmo, que apesar de reservas grandes, está tendo dificuldades em desenvolver a indústria petrolífera por causa do tumulto político.  Em 2013, Arábia Saudita produziu em torno de 11,500 mil barris por dia, ou quase seis vezes a produção do Brasil.  Outros grandes produtores inclui Rússia (10,500 mil barris por dia) e os Estados Unidos (10k mil barris por dia).    

Se você leu o primeiro artigo nesta serie até aqui, você já está quase pronto para acompanhar as notícias do desenvolvimento dos campos de pré-sal.  Por exemple, este artigo da EBC joga muitos números na cara do leitor, mas não o tema - você está preparado.  O artigo é de maio deste ano e começa dizendo que os campos de pré-sal “nas bacias de Santos e de Campos alcançou novo recorde diário, ao superar os 470 mil barris de petróleo por dia (bpd).”  Como a gente já sabe, Brasil produziu em torno de 2.100 mil barris por dia em 2013 e a expectativa da produção em 2014 é de 2,400 por dia. Então, é fácil colocar essas notícias em contexto: no meio deste ano, o pré-sal já representou 20% da produção Brasileira.  Isso é bom para um recurso tão jovem.  Talvez a única coisa desse frase que você não pegou direito foi a refêrencia às “bacias de Santos e de Campos.”

Não existe endereço mais difícil entender do que um de Brasília, mas os endereços dos campos do pré-sal chegam por aí.  O artigo da EBC fala sobre as “bacias” de Campos e de Santos e mas adiante fala de “campos.”  Outros artigos que tratam das leilões falam nos “blocos,” e claro, existe o lugar especifico onde o petróleo realmente sai da terra – “poços.”  Como tudo fica no mar, é difícil ter uma noção intuitiva onde esses poços ficam, ainda que os endereços deles passam nas notícias frequentemente.  Bom, os endereços funcionam assim:  Primeiro é a bacia.  As bacias mais importantes para petróleo são Espirito Santo, Campos, e Santos.  A mapa mostra como eles são divididos.  Basicamente, Santos é no mar do Estado de São Paulo de do Rio de Janeiro até Cabo Frio, RJ.  Cabo Frio até a fronteira sul do Espirito Santo é a bacia de Campos.

Fig 2: Bacias do Brasil
Blocos são áreas delimitadas dentro das bacias.  A mapa seguinte mostra vários blocos nas bacias de Campos e Santos.  Os velhos blocos são de azul.  A convenção de nomeação velha era a bacia primeiro (e.g. BC é bacia de campos e BS é bacia de Santos) e um número de identificação segundo.  Os novos blocos têm outra convenção de nomeação.  Se eles são do Mar (e todos nesta mapa ficam no mar), eles começam com BM (bacia do mar). Daí tem uma letra para identificar a bacia (e.g. C por Campos ou S por Santos) e um número de identificação.  Por exemplo, BM-S-11 significa que isso é um bloco no mar, na bacia de Santos, número 11.  Você consegue o encontrar na mapa?  Claro que vai ser na bacia de Santos (sul do Cabo Frio, RJ) e o cor dele na mapa é verde.

Fig 3: os Blocos demarcados pelos leilões
Os campos de petróleo são descobertos dentro desses blocos.  O Campo de Lula fica no bloco BM-S-11, que você acabou de encontrar na mapa.  Esse campo é estimado ter entre 5 e 8 bilhões de petróleo econômico (uma metade do que as reservas atuais do Brasil) e ultimamente está produzindo 100 mil barris por dia (ou seja, 4% de todo o petróleo produzido no Brasil).  O campo de Lula fica 250 km do Litoral Carioca.  

As operações no campo Lula produzem 100 mil barris por dia.  Isso é 159 milhões de litros por dia.  Onde é que eles colocam tudo isso?  Quando o petróleo bruto sai do poço, é uma mistura de petróleo, gás, e água.  Acontece que eles usam um barco super sofisticado para separar o petróleo e daí, eles transferiam o petróleo ao um navio tanker.  Neste Artigo da EBC, o autor menciona (mas não explica) a existência de um FPSO (Floating Production and Storage Offloading) navio.    Esse FPSO separa os produtos e passa o petróleo bruto para que um navio tanker que está esperando.  Daí, o tanker desconecta do FPSO e leva o petróleo para o literal, e às refinarias em seguida.  O próximo artigo trata das refinarias do Brasil.



[1] A gente já sabe que o Brasil tinha 16 bilhões de barris provadas em 2013.  Quando tiver reservas e uma taxa de produção, é muito atraente fazer uma calculação de “dias de petróleo sobrando.”  Mas não é uma boa ideia pois o mercado de petróleo é tão dinâmico que qualquer estimativa vai ser muito errado.  Tão errado, de fato, que é melhor naõ fazer.
[2] A gente já viu no primeiro artigo dessa série que o consumo do Brasil é em torno de 3,000 mil barris por dia em 2013.  Então, a produção de 2,000 mbd fica embaixo do consumo do país.  Isso quer dizer que, ultimamente, o país é um importador líquido do petróleo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Petróleo no Brasil II-B



"Reservas Provadas" (2013) nos 18 maiores produtores de Petróleo
Esse artigo faz parte duma série sobre Petroléo no Brasil.  Os outros são: I. Fatos básicos sobre petróleo e II. Consumo de petróleo no Brasil.

É vantajoso para um país se abastecer com uma fatia considerável da seu próprio petróleo.  Talvez esse frase parece como aqueles discursos tolos em que o político quer que a indústria do pais dele forneça todo mundo e ninguém do país compre nada importado.  Mas petróleo é diferente porque é um dos únicos produtos que sozinho pode provocar desequilíbrio rápido nas contas externas de um país.  Se um país tem mal sorte em relação com os mercados internacionais de petróleo, pode provocar desvalorização da moeda, inflação, e baixo crescimento econômico.  Ou seja, coisas perigosas pela estabilidade de um país[1].  A habilidade de comprar petróleo na moeda local ajuda a situação macroeconômica de um país consideravelmente.

Brasil já conta reservas provadas de petróleo em 16 Bilhões de barris[2] e não é incomum ouvir que o novo petróleo de “pre-sal” pode aumentar as reservas provadas em torno de 50 Bilhões de barris.  As otimistas falam até mais.  “Reserva Provada” é um termo técnico que significa que o petróleo pode ser recuperado do solo dentro das condições do mercado.  Ou seja, se o preço de um barril fica $ 100, óleo que custa $120 por barril para tirar do poço não faz parte da reserva.  Como o conceito de “Reserva Provada” é tão ligado aos preços de petróleo, esse número vai ter fluxo entre anos mesmo se a quantidade de “petrol em lugar” não tem mudança significativa.   

Se as estimativas dos especialistas são certas, Brasil logo vai ter reservas de petróleo em torno de 65 Bilhões de barris.  A gente pode começar ter uma noção sobre o que esse número significa se fazemos uma comparação com outros países produtores.  O gráfico mostra que o Venezuela e a Arábia Saudita são os dois países com a maior quantidade de reservas.  Venezuela tem por volta de 298 Bilhões de barris, que é 4,5 vezes 65 B, a quantidade que Brasil vai ter com o petróleo do pré-sal [a linha vertical de vermelho é 65 Bilhões – As reservas do Brasil com pré-sal].  A qualidade dos óleos não são todos iguais.  Lembre-se das características de óleo bruto do primeiro artigo deste séries.  Quanto mais pesado o óleo, o mais caro é para produzir.  Embora Venezuela e Canada tem reservas grandes, muito dessas reservas são de petróleo super pesado (em torno de 10 graus de API - quase areia ou areia mesmo) que vai exigir relativamente mais investimento para a produção sair do papel.  Arábia Saudita, Iraque, Irã, Coveite, e Emirados Árabes são produtores com reservas grandes e de alta qualidade, mas sempre tem risco que a oferta deles pode cair por causa da situação política difícil nesse parte do mundo.

Quando a gente tem um “estoque” de algo e uma taxa de fluxo, é muito atraente fazer um calculo de quando o estoque vai se esgotar.  Por exemplo, se a gente tem uma cisterna cheia de 100 litros de água e uma bomba que tira 10 litros por minuto, é fácil calcular que a cisterna ficará meia vazia daqui 5 minutos e totalmente vazia daqui 10 minutos.  Mas petróleo não é assim pois mudanças no preço de petróleo no mercado pode encorajar mais exploração, mais descobertas, e mais desenvolvimento dos reservatórios de petróleo que anteriormente não foram considerados “provados” pois o preço de petróleo não estava alto suficiente.  Ao outro lado, se chegar uma grande oferta duma combustível concorrente (e.g. gás natural), isso pode levar o preço de petróleo para baixo e daí vai ter menos petróleo disponivel nas condições do mercado. 

A coisa importante de entender desse artigo é o gráfico do começo, que mostra o tamanho das descobertas de pré-sal no âmbito mundial.  Talvez no futuro próximo, o Brasil vai ter o nono ou decimo maior reserva no mundo (a linha vermelha vertical).  Se o país consegue desenvolver esse recurso (e o caminho para fazer isso é caro e difícil), o país pode ser um, além de vários, pedaço importante na oferta mundial de petróleo.  Desde que Brasil é um país democrático e relativamente bem gerenciado, as reservas do Brasil pode ter um papel forte para levar estabilidade à economia mundial.  Mas ter reservas não é a mesma coisa do que produzir.  E claro, o próximo artigo vai mergulhar no assunto de produção de petróleo no Brasil.




[1] Qualquer país que importa petróleo paga com dólares pois é assim que petróleo é vendido nos mercados internacionais.  Para conseguir esses dólares, o país tem duas opções.  Se ele consegue exportar muito, os exportadores estão trazendo dólares para o país e tudo está tranquilo.  Mas se as empresas do país não têm condições de vender suficiente no exterior, o governo tem que comprar dólares com a moeda local.  Comprar dólares assim vai desvalorizar a moeda é os efeitos disso são extensos.  Só destaco que quando os mercados de petróleo ficaram contra os Estados Unidos nos anos 1970, tinha inflação e resseção no mesmo tempo.
[2] Reservas são quotadas em Bilhões de barris.  Desculpe a troca de unidades dos artigos anteriores, onde sempre usava mil barris por dia.