sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Petróleo no Brasil II-A


[Este artigo faz número dois de um series de artigos sobre petróleo no Brasil.  Veja a primeira que trata de conceitos básicos sobre petróleo.]

Antes de considerar como o petróleo pode financiar os gastos públicos, é aconselhável (e divertido) pensar no setor de petróleo no Brasil em si.  Petróleo possibilita a vida moderna.  O transporte de milhões de pessoas e toneladas de carga cada ano depende na gasolina, diesel, jetfuel e óleo combustível.  Até o asfalto das estradas, e muito mais, vêm de petróleo.  Claro, receitas da exploração do petróleo pode ser uma boa fonte para o orçamento público.  Porém, focar nele só para esse objetivo é perder uma perspectiva holística de como é possível, no primeiro lugar, que o setor cria riqueza.  Neste artigo, a gente olha ao setor de petróleo no Brasil.  Mas tenho que confessar que não consegui colocar tudo em um artigo só.  Por isso, peço desculpas enquanto eu divido o assunto de novo.  Os artigos sobre o setor de petróleo tratam de consumo, reservas, produção, e refino de petróleo.  Se você ler todo os artigos, você ficará com uma fundação de conhecimento sobre petróleo brasileiro e o papel dele no mercado internacional.  Mais do que isso, você vai entender melhor as notícias sobre o desenvolvimento do setor e mais para frente, os discussões sobre os Royalties vão ter mais significado para você.

Consumo de Petróleo no Brasil e no Mundo
Fig 1: Consumo de Petróleo no Brasil, 2004 - 2013
3.000 mil barris de petróleo por dia foram consumidos em 2013 no Brasil[1].  No resto do artigo, vou me esforçar de usar “mil barris por dia” com todos os números.  Então, sua tarífa é só lembrar “3.000” como ponto de referência[2].  Três mil, 3k, até 3,000 se você seja norte-americano[3].  Vamos fazer um teste, tá?  Em 2004, Brasil consumiu em torno de 2.000 mil barris por dia de petróleo.  Então entre 2004 e 2013, o consumo de petróleo no país cresceu quanto?  A resposta certa é 1.000 mil barris por dia[4].  Outro jeito de olhar nessa mudança é de porcentagem, onde cresceu 50%[5].  Pense em onde você estava em 2004.  Hoje, Brasil usa quase 50% mais de petróleo.  Impressionante, né?  Mais um indicador quanto rápido o mundo está mudando.

E até onde é que a demanda vai crescer nos próximos anos?  O gráfico encima mostra o caminho do consumo de 2004 até 2013, e também coloca as taxas anuais de crescimento.  Através dos últimos 10 anos, a taxa tem sido entre 2% e 8% por ano. Em média, a taxa de crescimento do consumo de petróleo tem sido por volta de 4%.  Se a gente use uma taxa de crescimento por aí (talvez 3,5%), o consumo de petróleo vai chegar daqui 10 anos na casa de 4.250 mil barris por dia[6] [7].  

Fig 2: Consumo Mundial do Petróleo
 O crescimento de consumo do petróleo no Brasil tem sido bastante, mas se você quer se assustar de verdade, é só olhar o consumo fora do Brasil.  O gráfico compara Brasil com os outros países grandes no mundo.  O resto da América Central e Sul consumiu 3.675 em 2013.  A Europa e ex-União Soviética se abasteceu com 18.500 mil barris por dia.  África consumiu 3.500.  A Oriente-Média tirou 8.500 mil barris por dia.  America do Norte usou 23.000 (eles se banham no petróleo lá) e a Ásia contou 30.000.  Soma tudo e você fica com 91.300 como o consumo mundial do petróleo em 2013.

Eu levo duas coisas desses números.  Primeiro, Brasil consome 45%, quase uma metade, do petróleo que é consumido na América Sul & Central[8].  Mesmo assim, esse 3.000 do Brasil significa que a demanda do petróleo no Brasil é só uma fatia pequena do gigantesco quadro mundial, que é 91.000 mil barris por dia.

Os Produtos de Petróleo
Quando as pessoas pensam no petróleo, frequentemente eles pensam na gasolina automóvel.  Mas petróleo bruto é processado para fazer uma variedade de produtos.  As agências estatísticas dividam esses produtos em dois classes: produtos energéticas e produtos não energéticas.  Você provavelmente está pensando que os produtos energéticos são coisas que podem ser usadas como uma combustível, e você teria razão (muito bom).  Esse classe inclui gasolina automóvel (gasolina A), Diesel, Gás de Liquido Petróleo (GLP), Combustível para Aviões (QAV), e óleo combustível que é muito pesado e frequentemente usado pelo combustível de navios.  Os produtos não energéticos inclui asfalto, Óleo lubrificante, parafina, solventes, e outros produtos.

Este gráfico mostra as participações desses produtos no processamento de petróleo nas refinarias brasileiras[9].  A painel da esquerda comunica que através do tempo, a produção das “não energéticas” tem crescida pouco.  Os números exatos são de 261 até 295 mil barris por dia (em torno de 13-15% do processamento brasileira).  O resto é dos energéticos, e a painel da direita mostra as participações deles em 2013.  Diesel foi o produto mais fabricado em 2013.  Do petróleo total que foi processado no país em 2013, 39% dele foi usado para fabricar diesel.  23% do petróleo processado foi uso para fazer gasolina automóvel , e 12% foi uso para fazer óleo combustível.  Gás Liquido Petróleo (GLP) foi de 8% em 2013.

Processamento de Petróleo em Refinarias Brasileiras, por Classe de Produto
Nos últimos anos (i.e. 2009 para cá), houve um crescimento expressivo na produção de produtos energéticos.  Embora o gráfico não mostra, essa tendência é o resultado do crescimento da produção de gasolina automóvel e diesel.  De 2009 até 2013, gasolina automóvel foi de 360 até 465 mil barris por dia, e diesel foi de 740 até 850 mil barris por dia.  Parte disso tem a ver com o crescimento forte da economia em 2010, mas é provável que também deve muito ao crise no setor de etanol.  Etanol é um substituto (parcial ou total) para gasolina automóvel e diesel, que juntos, compõem mais do que 60% do petróleo usado no Brasil.  Se tiver problemas em um setor e o preço aumenta, o outro setor vai assumir uma parcela da participação no mercado.   

Neste artigo, a gente estabeleceu um ponto de referência pelo setor petróleo brasileiro, e esse ponto é o consumo do mercado.  Os próximos artigos vão dar uma olhada nas outras partes do setor petrolífero – nas reservas, e na produção e refino do petróleo no Brasil.


[1] ANP - Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 2014
[2] Cada barril é 42 galões, ou quase 159 litros.
[3] Como a gente está usando “mil barris por dia,” os mais espertos vão reconhecer que, de fato, 3.000 mil = três milhões barris por dia. 
[4] 3.000 mil barris (consumido hoje no Brasil, sua ponta de referência) – 2.000 (a consumo em 2004)
[5] [(3000 – 2000)/2000 ]*100 = 50%
[6] Calculado com uma taxa de crescimento continuo: 3000*EXP(0.035*10) = 4.257.
[7] Descobri que a ANP usa números da empresa BP para fazer comparações internacionais, e seus próprios estatísticas para calcular estatísticas brasileiras.  E eles podem ser muito diferente.  Por exemplo, se você usa as estatísticas de ANP-interno do brasil, o consumo do petróleo (energético e não-energéticos) foi de 1700 mil barris por dia em 2004 até 2400 mil barris por dia em 2013.  E a expectativa é que vai chegar em 3200 mil barris por dia em 2023.  Ou seja, os números internacionais sobre-estimam os números de ANP entre 500 e 1000 mil barris (i.e. algo como 30%).  As expectativas do consumo no futuro vem da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que publica um relatório que se chama o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE).  Este ano, o PDE 2023 já saiu para consulta pública.  Nesse relatório, o governo está esperando o Brasil usar 3.200 mil barris de petróleo por dia em 2023.  No PDE 2022, a expectativa é de 3.300 mil barris por dia em 2022. O relatório PDE 2023, em tabela 42 (p67), diz que consumo de petróleo (por energia e não-energia) em 2023 é de 162.779 tep (toneladas de petróleo equivalente) por ano.  EPE usa o fator de conversão de 1 tep ano = 7,2 bep ano.  Dividir isso por 365 para chegar ao mil barris por dia.  Por exemplo, 162.779/(7.2*365) = 3.200 mil barris por dia. 
[8] Isso é acreditável porque dos 465 milhões de pessoas naqueles países (não inclui Mexico), 200 milhões (ou 43%) são Brasileiros.  
[9] Vamos olhar nas participações das refinarias e não no consumo final pois daí a gente tem que levar em conta importação e exportação.  Os dados das refinarias da um olhar suficiente para entender as participações dos produtos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário