segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A(s) Taxa(s) de Desemprego no Brasil

[Nota de clarificação: Este artigo se refere a PNAD-Contínua, não à PNAD Anual, a versão 2013 do qual saiu na semana passada com mais do que um pouco de polêmica.  A PNAD-Contínua já era suspensa até o ano que vem por motivos que eu explico aqui.]  

Se você é agência nacional de estatística e está a fim de chamar a atenção dos políticos, ameaçar mudar a metodologia de como você calcula a taxa nacional de desemprego num ano eleitoral.  Melhor ainda, faz como que a taxa vai subir muito.  Divulgue 5,4% pelo ano anterior com a velha metodologia, e publique uma nova taxa de desemprego de 7,1% pelo mesmo período.  Pronto.  Foi isso que aconteceu no Brasil com a agência estatística, IBGE, no começo deste ano.    
 
Logo depois, notícias (e.g. aqui e aqui) começaram sair sobre um "crise institucional," na agência.  Ao meu ver, IBGE fez tudo certo.  Quando eles publicaram esse número de 7,1% for 2013, também divulgaram o número de 7,4% em 2012, o ano referencial para essa nova metodologia.  Mesmo assim, realidades políticas se intrometeram e a agência recebeu reclamações de dois senadores da República.  A diretoria da IBGE colocou a nova metodologia em suspensão enquanto as preocupações dos senadores foram atendidas.  Por aparência, a agência estatística estava sendo politizado, e acabou provocando muitos servidores públicos entrar em greve e até pedir demissão.  

Não tenho muito a dizer quanto a crise política, pois ficou difícil entender o que exatamente aconteceu e por que.  Primeiramente, eu não encontrei uma exposição clara do que foi o problema que os senadores tinham com a nova metodologia.  Em muitos lugares, eu li alguma forma da declaração indefinida, "Entre os questionamentos destacava-se, particularmente, aquele relativo aos intervalos de confiança das estimativas por Unidade da Federação, já que tais estimativas servirão de base para o rateio do Fundo de Participação dos Estado (FPE)."  Em outro artigo, eu encontrei a sugestão que os senadores quiseram que os intervalos de confiança "sejam equalizados" para facilitar repartição do FPE.  Talvez isso faz sentido do ponto de vista política pois os senadores representam os estados deles e querem que a pesquisa trata cada estado igualmente - dando cada estado o mesmo intervalo de confiança.  Em prática, têm tantos fatores que faz isso difícil aproximar e impossível conseguir exatamente sem uma amostra que cobre a população inteira - ou seja, um intervalo de confiança de zero. E seria muito caro sondar a população inteira cada três meses.  Em fim, IBGE convocou uma força tarefa para investigar mudanças na metodologia, e será interessante como eles resolvem isso.

Para mim, os acontecimentos levantaram algumas perguntas básicas que queria investigar, inclusive:
  • Como funciona a velha metodologia e a nova metodologia da taxa de desemprego?
  • Por que IBGE mudou de metodologia?  O que é que a nova metodologia traz de melhor?
  • Como é que os resultados das duas metologias são diferentes? 

Taxas de Desemprego

Eu conto três índices de desemprego no Brasil. Dois são publicados por IBGE e um é publicado pela DIEESE, um centro de pesquisas particular e ligado com o movimento sindical.  Cada mês, IBGE divulga a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), qual é a "velha metodologia."  Todo ano, IBGE publica a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).  Recentemente, IBGE tem comprometido publicar a PNAD cada três meses para calcular a taxa de desemprego (a "nova metodologia") - que é a PNAD-Contínua.  Explico as diferenças das pesquisas do IBGE embaixo.

Em Geral

A taxa de desemprego em qualquer país é uma fração.  Na parte inferior da fração, tem o número de pessoas da força de trabalho do país.  Em Brasil no 2012, esse número (setor formal e informal) foi em torno de 90 milhões de pessoas.  Como Brasil tem população de 200 milhões, isso quer dizer que a força trabalho é 45% da população.  O resto da população fica fora da força trabalho porque eles são crianças, aposentados, ou adultos que não trabalham por algum motivo. O tamanho da força de trabalho varia com a metodologia usada para definir ela.  Por exemplo, a agência estatística automaticamente exclui crianças embaixo de uma idade determinada (e.g. 14 anos).  A agencia também tem que excluir pessoas que não tem condições ou a vontade de trabalhar.  Frequentemente, eles perguntam se a pessoa tem trabalhado ou procurado trabalho nos últimos 30 dias.  Senão, a pessoa está considerada fora da força de trabalho. 

Na parte superior da fração é o número de pessoas que estão dentro da força de trabalho mas não tem trabalho.  "Ter trabalho," é um conceito meio elástico então as agências tem que operacionalizar (colocar em prática) uma definição para saber se alguém tem trabalho.  Algumas metodologias determinam que a pessoa "tem trabalho" se a pessoa tem trabalhado uma hora ou mas na semana passada.  Outras metodologias tem uma categoria de "sub-emprego" para pessoas que trabalham mas as horas delas são bem inferiores ao número de horas que elas queiram trabalhar.

Em fim, a maneira em como esses conceitos de "dentro da força de trabalho," e "ter trabalho" estão colocado em prática afeita muito os resultados finais da taxa de desemprego.  Metodologias para calcular desemprego também podem ser diferente porque elas estudam comunidades diferentes. E [e isso que é um grande diferença entre a velha e a nova taxa de desemprego no Brasil. 

A Velha e a Nova Taxa de Desemprego

Atualmente, a velha metodologia sai todo mês e se chama a Pesquisa Mensal de Emprego (PME).  Está em vigência desde 2002.  A PME calcula o número que está nos todos os jornais com frequência, então esse número tem muito peso na consciência nacional de como as coisas estão indo no mercado de trabalho.  Um fato central da PME é que a abrangência geográfica é bem limitada.  É composta das regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.  Ou seja, áreas rurais e grandes cidades como Curitiba, Fortaleza, Brasília, Manuas, e Florianópolis não tem peso neste índice.  Outro aspecto que destaca a PME é que a idade para qualificar para a força de trabalho é 10 anos.  Em outras palavras, se você é com 10 anos de idade e você procurou um trabalho nos últimos 30 dias sem conseguir nada, você é incluso na pesquisa como trabalhador desempregado.

A nova metodologia, a PNAD-Contínua, é uma adaptação do estudo anuário PNAD, a pesquisa nacional de amostra dos domicílios.  O IBGE explica, 
A decisão específica para a realização da PNAD Contínua considerou, ainda, o constante questionamento por parte de órgãos governamentais, centros de estudo, pesquisadores e de organismos internacionais sobre a inexistência de indicadores conjunturais relativos à força de trabalho da totalidade do País e das Unidades da Federação. (p 5)
A maior inovação da PNAD Continua é que ela abrange uma grande fatia do país.  As áreas mais rurais e cidades menores são inclusos na pesquisa.  Isso é importante porque os mercados de trabalho em lugares rurais e cidades pequenos frequentemente comportam diferente do que em as cidades grandes.  A PNAD Continua inclui em torno de 210,000 domicílios cada trimestre e o questionário é nada pequeno (imagino que deve demorar uma hora ou mais).  Assim, é muito trabalho para IBGE e rende muitos dados importantes além da taxa de desemprego.  Também, inclui renda per capta e informações sobre indicadores sociais.  Finalmente, a PNAD-Contínua eleva a idade de trabalho até 14 anos dos 10 anos de PME.  Enquanto isso pode parecer importante, IBGE separa essa faixa etária  tem tão poucos trabalhadores que não afeita muito a taxa de desemprego.  

Vale destacar uma característica das duas pesquisas, que é os pesquisadores do IBGE seguem os domicílios sobre o curso de 15 ou 16 meses (em painel).  A PME é de 16 meses onde um domicílio entra para 4 meses, sai da amostra para 8 meses, e re-entra a amostra para 4 meses.  A estratégia de PNAD é para um domicílio entrar por um mês, sai por duas meses, e repete isso 5 vezes por um total de 15 meses em total.  A habilidade seguir domicílios é muito útil para pesquisadores porque facilita ver como mudanças nas condições de trabalho afeita os outros aspetos da família ao longo de tempo (e.g. renda, número de moradores, decisões comprar produtos duráveis, etc).    

Os Resultados das Duas Metologias

O primeiro motivo por pesquisas sobre desemprego é saber a taxa de desemprego para Brasil inteiro.  Esse número é tão importante em discurso político que as vezes a gente esquece que atrás desse número existe muita variação.  Varia por idade, varia por sexo, e varia por região.  Essa variação por região nos lembra que não existe um mercado de trabalho só no Brasil.  Existe muitos, então o jeito em que as estatísticas dos regiões estão compilados em um índice só vai afeitar o número final [Foi aqui que o IBGE errou com PNAD 2013 - os pesos das regiões].  Por exemplo, a PME (veja embaixo) mostra que em qualquer mês, a taxa de desemprego em Porto Alegre é pelo menos dois pontos abaixo a de Recife e quatro pontos abaixo a de Salvador. 


Olhando este gráfico, a gente vê que é natural acreditar que quando uma pesquisa de desemprego expande ao resto do pais, a taxa de desemprego não vai ser igual à taxa de PME por todo Brasil.  Tem motivos acreditar que vai ser maior ou menor?  Uma coisa que sabemos é muito importante no mercado de trabalho é o tamanho do mercado.  Um mercado grande ajuda os trabalhadores e empregadores encontrar um bom "fit" (encaixamento) mais rápido  Um mercado pequeno faz com que trabalhadores procuram por emprego ao longo mais tempo pois tem menos oportunidades.  Além disso, as economias nas grandes cidades frequentemente andam melhor do que nas cidades pequenos porque é lá onde tem mais inovação (e daí crescimento) devido "agglomeration economies."  Então, por esses dois motivos, é natural pensar que a inclusão das áreas rurais e cidades pequenas aumentaria a taxa de desemprego.

Não é possível ter uma comparação perfeito entre PME e PNAD Contínua por dois razões.  Primeiro é a frequência: PME é mensal e PNAD é trimestral.  Segundo é o fato do que PME é feito por seis municípios e a versão atual de PNAD Continua analisa regões.  Mesmo assim, a gente pode comparar a PNAD taxa para todo Brasil em cada trimestre com os numerais mensais (Brasil) de PME durante o mesmo período.  O gráfico embaixo mostra os dados de PNAD Continua de 2012 até o fim de 2013.
 
 
Basta para ver que o número de PNAD (Brasil) fica em torno de 7,5% em 2012 e mais para 7,0% em 2013.  Olhando o gráfico para PME, da para ver que o número (Total) dessa metodologia fica embaixo de 6,0% em 2012 e 2013.  Ou seja, a mudança da metodologia de PME para PNAD vai elevar a taxa nacional de desemprego entre 1-3%.  E como disse encima, se eu tinha que adivinhar o motivo por isso, eu diria que muito dessa mudança tem a ver com a inclusão das áreas rurais e cidades menores na índice. 

Pensimentos Finais

A PNAD-Contínua representa um avanço muito importante nas estatísticas Brasileiras.  Com o lançamento desta pesquisa, todos brasileiros, e não só apenas os morando nos maiores cidades, são representados na taxa de desemprego do país.  Esta pesquisa nós lembra que tem muito diversidade nos mercados do trabalho através do país, e o levantamento traz informações ricas sobre essa diversidade.  Além disso, a PNAD-Contínua inclui perguntas sobre assuntos que não são parte de PME.  A nova pesquisa merece ser reconhecido como um ótimo recurso.  Eu espero que logo, apesar da situação infeliz quanto a PNAD Anual de 2013, a sociedade Brasileira vai beneficiar muito por causa desta iniciativa do IBGE.   

·     



Nenhum comentário:

Postar um comentário